• Marcos Sandália & Meia

5 canções de Raul Seixas

Atualizado: 22 de Ago de 2019


Raul é referência de música popular sem ser banal

Lá se vão 30 anos da morte de Raul Santos Seixas, e o artista baiano segue uma lenda da música popular brasileira. Eu mesmo, quando questionado sobre minha religião, digo: "sou RaulSixista, ora bolas"!


Cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista, Raulzito deveria dispensar apresentações, tamanha importância de sua obra, estética e produção. Considerado um dos pioneiros do rock brasileiro, antes da carreira artística, quando produtor musical da gravadora CBS, foi responsável pelo trabalho e por sucessos de muitos artistas populares da nossa música.


Em 26 anos de carreira e com uma obra composta por 17 discos, conseguiu a proeza de unir o rock de Elvis Presley, seu ídolo de infância, ao baião de Gonzagão, como em Let me Sing, Let me Sing.


Começando como Raulzito e os Panteras, só ganhou notoriedade com as músicas de Krig-ha, Bandolo!, álbum de 1973, como: Ouro de Tolo, Mosca na Sopa e Metamorfose Ambulante. Com o disco Gita, de 1974, adquiriu um estilo "contestador e místico", influenciado por figuras como o ocultista Aleister Crowley, vide a faixa Sociedade Alternativa.


Cético e agnóstico, Raul Seixas se interessava e trazia para suas canções ideias da filosofia, psicologia, história, literatura e latim, conseguindo agradar intelectuais e camadas populares da população, liberais e caretas.


Símbolo do rock brasileiro, em 2008 figurou em 19° lugar na Lista dos Cem Maiores Artistas da Música Brasileira, promovida pela a revista Rolling Stone. No ano anterior, dois de seus álbuns, Krig-ha, Bandolo! (12ª posição) e Novo Aeon (53º lugar), figuraram na Lista dos Cem Maiores Discos da Música Brasileira, promovida pela revista.


Mas eu não vim pra falar da vida, carreira ou dos sucessos desta lenda. Para tal, recomendo o filme Raul Seixas - o início, o fim e o meio, com direção de Walter Carvalho e produção de Denis Feijão - lançado em 2012. Estou aqui para contar as 5 faixas de Raul que mais me tocam, pelo menos no momento em que escrevo este texto. Lá vai!


Raul em 5 faixas

Loteria da Babilônia


Composição de Raul Seixas e Paulo Coelho, presente em seu terceiro álbum solo, Gita (1974), Loteria da Babilônia é um grito, uma explosão, um desabafo sobre a rotina, a competição, a falta de entendimento, de diálogo.


Aqui, Raul canta contra padrões e fórmulas de sucesso para a vida, reconhecendo até que elas existem, mas será que a gente aguenta viver anulando nossa individualidade?


...


E grita ao mundo que você está certo Você aprendeu tudo enquanto estava mudo E já não tem mais nada o que fazer a não ser Verdades e verdades, mais verdades e verdades para me dizer A declarar!...


Mas o que você não sabe por inteiro é como ganhar dinheiro Mas isso é fácil e você não vai parar


É fim de mês


Autoria de Raul Seixas, integrante de Novo Aeon (1975), quarto álbum solo de estúdio do baiano, É fim de mês é uma canção das mais explícitas de sua obra.


Irônica, debochada, agoniada, ela canta como somos escravos em nossas atitudes, seja nos desejos, na relação com o trabalho, o consumo e como buscamos remédios diversos para conseguir lidar com toda a dor desta prisão cotidiana, ou até mesmo para não escapar do "conforto" que a mesma proporciona.


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É fim de mês, é fim de mês!

Eu já paguei a conta do meu telefone, eu já paguei por eu falar e já paguei por eu ouvir Já fui pantera, já fui hippie, beatnik, tinha o símbolo da paz pendurado no pescoço Porque nego disse a mim que era o caminho da salvação Já fui católico, budista, protestante, tenho livros na estante, todos tem explicação


Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra que te ensina como é que você vive alegremente, acomodado e conformado de pagar tudo calado, ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer

E o fim de mês vem outra vez



Na rodoviária


O nono álbum de estúdio de Raul Seixas, Por quem os sinos dobram (1979) traz a terceira e a quarta faixa deste post e começo com a belíssima Na Rodoviária.


Parceria com Oscar Rasmussen, o que me chama mais a atenção na canção é sua linha melódica, que transita entre o nostálgico, o reflexivo, o solitário, com um refrão quase glorioso, sem falar na letra totalmente dadaísta; que ao misturar vários ícones da humanidade e do imaginário popular, ganha um humor pra lá de sofisticado.


...

Nada de novo no front, treze vezes, anteontem Ah, meu Deus, o invento da vela

Al Capone Bruce Lee, você pode também estar aqui Na lista telefônica, assim como a vela

É 35 de aluguel, foi algures mausoléu Violeta Parra e Nero iluminaram Roma, assim como a vela



Diamante de Mendigo


Ainda no Por quem os sinos dobram, destaco Diamante de Mendigo, mais uma parceria com Oscar Rasmussen e uma das faixas mais AM de Raul, inspirada em suas criações e produções populares, quando na CBS.


Possivelmente esta não é uma das canções mais populares de Raulzito, até por parecer mais um desabafo, do que uma composição propriamente dita; mas curto pelo seu teor confessional, honesto, despido do personagem de rock star.


Bastante humanizada, ela fala sobre a importância das relações e da armadilha que é ouvir a todos ou querer fazer parte de tudo que surge como novo ou necessário.


...

E agora sofro as atitudes que tomei por acreditar em verdades ignorantes Que na época tomei, acreditando numa moda passageira que se foi tal qual fumaça

Acabamos, no fim, perdendo a quem nos ama

Só por que o jornaleiro da esquina... Falou que é otário aquele que confia e é tão difícil confiar em alguém Eu que me achava um diamante nas mãos de mendigos Só pelo medo de não sê-lo


Eu quero mesmo


Para fechar, a quinta faixa integra O Dia em que a Terra Parou (1977), sétimo álbum de estúdio da carreira solo de Raulzito. Parceria com Cláudio Roberto, Eu quero mesmo é um rock safado, direto, pra lá de explícito, contra a mania dos compositores brasileiros de compor difícil, com uma pretensão intelectual, muitas figuras de linguagens ou acordes, vislumbrando uma sofisticação.


Aqui, Raul dá um grito de liberdade e abre seu coração sobre a música que adorava ouvir e fazer. Ouso dizer que esta é uma homenagem, quase uma reconciliação inconsciente com seus tempos de produtor musical da CBS. Adoro!


...

Por muito tempo eu sentia vergonha das coisas que eu sinto E disfarçando, escrevia difícil só pra complicar Eu tinha medo de ver a beleza da simplicidade Nunca falava "eu te amo" com medo de alguém me gozar Eu gosto de "Besame Mucho" e eu gosto, eu vou tirar você desse lugar Eu quero mesmo é cantar yê-yê-yê! Eu quero mesmo é gostar de você! Eu quero mesmo é falar de amor! Eu quero mesmo é sentir seu calor!



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